Síndrome de Burnout: um problema de quem “veste a camiseta”

Poucas coisas na vida são tão gratificantes quanto trabalhar naquilo que a gente gosta, fazer o que a gente ama e se sentir reconhecido. A necessidade de se sentir produtivo é inerente ao ser humano, sentimo-nos felizes quando nos identificamos com o nosso trabalho e conseguimos dar o melhor de nós por ele. No entanto, poucas coisas na vida são tão desesperadoras quanto adoecer por aquilo que nos fazia muito feliz, desgastar-se por ter se doado demais. Estamos falando da Síndrome de Burnout, um perigo para aqueles trabalhadores que se doam demais ao trabalho.

É justo que possamos trabalhar em atividades com as quais nos identificamos, da mesma forma que é justo que consigamos dar o nosso melhor pelo trabalho e ser reconhecido por ele. As instituições buscam, cada vez mais, pessoas com o perfil adequado a cada cargo, pessoas que dão o melhor de si, que gostam de se desafiar e de sentirem-se desafiadas. As demandas pela produção rápida e a velocidade das informações justificam essa busca desenfreada por profissionais qualificados e produtivos. No entanto, essas demandas, reforçadas pelo estímulo à competitividade escondem importantes riscos a saúde mental que precisam ser observados com maior atenção pelos trabalhadores, empresários e profissionais de saúde. Um desses riscos é o esgotamento profissional, hoje reconhecido como Síndrome de Burnout.

A Síndrome de Burnout se caracteriza por um estado de exaustão física, emocional e mental extrema. Como o próprio nome sugere (inglês: burn out / português: esgotamento, queimar, exaustão), o trabalhador com Burnout se percebe sem energia, sem forças para o trabalho, sem capacidade de raciocínio. É como se, de repente, toda sua destreza para o trabalho se queimou por completo. Então, aquele trabalhador que era muito empenhado, que dava o melhor de si, que “vestia a camiseta” da instituição, de repente se vê sem conseguir trabalhar. Isso gera um impacto muito grande na vida do trabalhador, afetando gravemente sua saúde, seu trabalho, seu convívio familiar e social.

O acúmulo excessivo de trabalho em situações muito estressantes, que demandam muita responsabilidade ou competitividade são o maior risco para a Síndrome de Burnout. Então, algumas profissões, cuja natureza do trabalho incluem essas características devem estar mais atentas ao risco, como as áreas da saúde e educação: professores, médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas etc. Ainda, podem ser incluídos aí, em destaque, o advogados, jornalistas, bancários, assistentes sociais e policiais, entre outros.

As sobrecargas de trabalho e os elevados graus de estresse podem gerar os sintomas característicos da síndrome, aos quais os trabalhadores devem estar atentos: cansaço físico e mental excessivo, dor de cabeça frequente, alterações no apetite, insônia, dificuldades de concentração, sentimentos de incompetência e negatividade constante, alterações repentinas de humor, isolamento, alterações na pressão arterial, problemas gastrointestinais, alterações nos batimentos cardíacos. Ao apresentar alguns desses sintomas, recomenda-se que o trabalhador busque ajuda profissional o quanto antes, realize avaliação psicológica e psiquiátrica, siga o tratamento recomendado e faça mudanças no seu estilo de vida.

O tratamento mais eficaz para combater a Síndrome de Burnout é multidisciplinar. Uso de medicamentos como antidepressivos ou ansiolíticos podem ser necessários num determinado período do tratamento. É muito importante associar psicoterapia por tempo indeterminado, para trabalhar suas questões e se fortalecer em suas estratégias defensivas para reabilitar-se em suas funções laborais. Ainda, mudanças nos hábitos e estilo de vida, como a prática de exercício físico e exercícios de relaxamento regularmente podem contribuir muito para o tratamento dos sintomas e fortalecimento da saúde mental.

No entanto, não basta tratar o trabalhador adoecido, é preciso também haver mudanças nas condições de trabalho! Na maioria dos casos diagnosticados como Síndrome de Burnout, o trabalhador precisa ser afastado do seu trabalho, por um período, para tratamento. Esse período pode ser curto (15 dias), por alguns meses ou anos! E isso irá variar para cada caso, conforme o grau de adoecimento, adequação de tratamento e conforme as mudanças que irão acontecendo no ambiente de trabalho para readequar o trabalhador acometido pela Síndrome. O adoecimento e afastamento do trabalhador também causam um importante impacto à instituição, que antes tinha a contribuição de um profissional muito competente e, na sua ausência, sente uma baixa na produção geral da instituição. Isso precisa ser olhado com atenção por gestores, empresários e chefes de setor. Ora, se um trabalhador adoeceu pelo trabalho, tem algo errado no trabalho que precisa ser revisto, tanto para o retorno do trabalhador que sempre foi muito empenhado e não merecia adoecer, quanto para diminuir o risco de que outros trabalhadores também adoeçam. Toda instituição também precisa, de tempos em tempos, tratar seus sintomas e rever seus processos de trabalho.

Mas melhor que tratar, sabemos todos, é prevenir! A prevenção da Síndrome de Burnout é possível e deve ser feita em nível coletivo e individual. As empresas precisam estar atentas a competitividade entre trabalhadores, evitando estimulá-la, priorizando o trabalho em equipe e ajuda mútua entre seus integrantes. Estar atento a saúde dos seus, realizando exames periódicos, estimular o diálogo entre trabalhadores e ouvi-los também, pois quando se identifica um problema no trabalho, as melhores estratégias para solucioná-los são aquelas sugeridas pelos próprios trabalhadores. Da mesma forma, cada trabalhador precisa cuidar, em primeiro lugar, da sua saúde. Estar bem para produzir bem. É muito bom vestir a camiseta do trabalho e dar o melhor de si, mas também é fundamental ter horário para tirar a camiseta, vestir a camiseta da família, da sua vida pessoal, da sua vida social, dos momentos de lazer e descanso. Afinal, não podemos viver apenas de trabalho. O trabalho precisa ser um meio para realizarmos nossos sonhos. Ele é um instrumento. Então, trabalhador, não abra mão do seu intervalo, do seu momento de descanso, das suas férias. Não abra mão da sua saúde mental!

PATRÍCIA FELDEN TORMA, psicóloga.

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