
“Hoje tive um dia cheio no trabalho, preciso tomar um banho, beber um vinho e relaxar”. Então posto bonitas fotos no story do Instagram e do Facebook e tenho muitas curtidas, pois estou relaxando e curtindo a vida. Talvez eu não goste de vinho, prefira a cerveja bem gelada, um espumante ou mesmo algum destilado e vou beber aquilo que mais agrada meu paladar. Até aí, tudo bem, se isto acontecer eventualmente, de forma não prejudial à saúde, às relações afetivas e sociais. Porém, beber para relaxar após um estressante dia de trabalho pode se tornar um hábito e esconder um grande perigo que é o desenvolvimento do alcoolismo crônico relacionado ao trabalho e ainda mascarar outras patologias mentais que o trabalho em condições estressantes pode desenvolver.
Já tem bastante tempo que o Ministério da Saúde do Brasil reconheceu o alcoolismo crônico como uma doença relacionada ao trabalho (Portaria nº 1339, de 18 de novembro de 1999), no entanto ainda seguimos sem identificar e prevenir esse importante agravo da forma que ele merece ser tratado. Em 2001, o MS identificou profissões de maior risco para o desenvolvimento do alcoolismo crônico relacionado ao trabalho, entre elas, destacam-se aquelas desprovidas de reconhecimento social e dotadas de rejeição (contato com cadáveres, lixo e dejetos em geral), situações de trabalho perigoso e de tensão elevada (transportes coletivos, estabelecimentos bancários e construção civil), de grande densidade de atividade mental (repartições públicas, estabelecimentos bancários e comerciais), trabalho tedioso, monótono, com isolamento do convívio com outras pessoas (vigias), situações de trabalho que envolvem afastamento prolongado do lar (plataformas marítimas, mineração, viagens frequentes) (BRASIL, 2001, p.175).
Sobrecarga de tarefas, conflitos interpessoais, carga elevada de estresse, assédio moral, risco de acidentes, falta de reconhecimento social, afastamento do lar, entre outros fatores geradores de sofrimento no trabalho são importantes riscos para o desenvolvimento de transtornos mentais, portanto, merecem atenção especial.
Segundo o CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, o uso abusivo de álcool é um dos problemas mais sérios de saúde pública no Brasil e no mundo inteiro e chama a atenção, inclusive as questões relacionadas ao desemprego. “Apesar de estudos científicos destacarem o consumo abusivo do álcool como causa de desemprego, o contrário também tem sido evidenciado de modo consistente” (2015), sendo que a situação da falta de trabalho também pode levar ao aumento do consumo de álcool e ao risco de dependência alcoólica. Na publicação do CISA, ainda ganha destaque a importante contribuição do estresse na relação entre o álcool e o trabalho, “sendo que os trabalhos mais estressantes (posições com maiores responsabilidades) influenciariam mais o uso de álcool e transtornos relacionados (abuso e dependência)” (idem). Alerta também que “as mulheres acabam sendo ainda mais prejudicadas que os homens quando se trata do impacto da demanda excessiva de trabalho”, devido à frequente dupla jornada de trabalho ao chegar em casa, cuidando também dos filhos e afazeres domésticos (idem).
O efeito calmante e estimulante do álcool pode ser uma forma de viabilizar e suportar o trabalho penoso como uma busca para dar conta das condições que por si só parecem insustentáveis. Porém esse efeito imediato calmante e estimulante, além do risco de desenvolver alcoolismo, pode ainda estar disfarçando e agravando outras patologias mentais relacionadas ao trabalho como o transtorno de ansiedade, episódio depressivo ou a síndrome de burnout. Estas situações merecem grande atenção do próprio trabalhador, dos seus familiares e dos seus gestores, pois é preciso buscar ajuda profissional e realizar tratamento, seja este individual e/ou do ambiente de trabalho.
Como possibilidades de tratamento ao alcoolismo crônico, o Ministério da Saúde do Brasil aponta a necessidade de múltiplas estratégias terapêuticas, implicando, muitas vezes, “em mudanças na situação de trabalho” (2001, p. 176). O melhor prognóstico apontado ocorre nas situações em que o trabalhador doente busca voluntariamente um profissional de saúde por ter constatado que necessita de ajuda. Nessa fase é fundamental o pronto acolhimento dos profissionais para os quais foi endereçada a demanda e a indicação terapêutica adequada para cada caso, envolvendo, muitas vezes psicoterapia e tratamento farmacológico.
No entanto, as melhores estratégias ainda são as ações preventivas que buscam identificar no ambiente de trabalho e no cotidiano do trabalhador aspectos organizacionais e ambientais relacionados ao risco do desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo o alcoolismo crônico, propondo atividades para transformá-los. Propor melhorias das condições de trabalho, como a supervisão atenta de chefias em situações laborais socialmente desprestigiados ou de grande tensão emocional, fornecimento de equipamentos adequados, estratégias de redução das situações de ameaças de violências e riscos de acidentes, a garantia de pausas em locais confortáveis e agradáveis para redução das tensões, facilitação da comunicação com pessoas em situações de trabalho com isolamento, controle e redução dos níveis de ruído no ambiente de trabalho (BRASIL, 2001, p. 177).
Se abordarmos o alcoolismo como um tipo de discurso (MELMAN, 1992, p. 15), podemos considerar que as instituições também podem assumir determinados discursos. É fato, pois, que falta ao alcoolista uma possibilidade de sentir-se “reconhecido e respeitado como sujeito” (idem, p.20). Nesse sentido, uma empresa que investe em programas de prevenção parece sustentar um discurso de preocupação e proteção da saúde de seus trabalhadores, reconhecimento e respeito aos seus colaboradores enquanto sujeitos. Um discurso que, quando desenvolvido coerentemente, cuida do trabalhador, das relações familiares e sociais, do desenvolvimento institucional e da sua boa produtividade, promovendo ambientes de trabalho mais saudáveis e, certamente, reduzindo os adoecimentos mentais relacionados ao trabalho.
PATRÍCIA FELDEN TORMA, psicóloga.
Referências Bibliográficas:
BRASIL, Ministério da Saúde do – Representação no Brasil da OPAS/OMS. Doenças relacionadas ao trabalho: Manual de procedimentos para os serviços de saúde; Organizado por Elizabeth Costa Dias; colaboradores Edelberto Muniz Almeida et AL. – Brasília: Ministério da Saúde do Brasil, 2001.
BRASIL, Ministério da Saúde do. Portaria 1339, de 18 de novembro de 1999. Acesso em: 13/06/2020. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/1999/prt1339_18_11_1999.html#:~:text=Art.,Art.
CISA, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Álcool e Trabalho. 2015. Acesso em: 13/06/2020. Disponível em: https://cisa.org.br/index.php/pesquisa/artigos-cientificos/artigo/item/86-alcool-e-trabalho
MELMAN, Charles. O discurso do Alcoolista. In.: Alcoolismo, Delinquência, Toxicomania: uma outra forma de gozar. Tradução de Rosane Pereira. Organização e revisão técnica de Contardo Calligaris. São Paulo: Escuta, 1992.
