
Atender pessoas que estão necessitando de cuidados, ouvir as queixas e os relatos de dor física e da alma, acolher, acalmar, recomendar, encaminhar, buscar a causa da dor e do sofrimento, tentar resolver da melhor forma o problema do outro e, muitas vezes, esconder sua própria dor, seu próprio sofrimento. Essa é a rotina de trabalho de muitos cuidadores, profissionais da saúde, geralmente cercada pela exaustão física e emocional. Não raramente o profissional da saúde também adoece. E a questão que se coloca, repetitivamente, em redes sociais, em discursos, em rodas de conversas presenciais e virtuais é: afinal, quem cuida do cuidador?
Trabalhadores da saúde esforçam-se não somente para cuidar do adoecimento, mas também para a educação em saúde e desenvolvimento de práticas preventivas, como o estímulo à melhoria da qualidade de vida das pessoas, promovendo a saúde física e mental. No entanto, como estes trabalhadores também enfrentam problemas nas suas condições de trabalho, acabam algumas vezes não conseguindo manter práticas de auto-cuidados para si próprios, permanecendo muito vulneráveis a adoecimentos físicos e psíquicos.
A prática do cuidar se entrelaça à memória afetiva das nossas primeiras vivências, do cuidado materno. O cuidador da saúde alia práticas baseadas na técnica de sua formação com o afeto do cuidado. Em tempos de pandemia da COVID-19, onde os cuidados são redobrados, a dedicação do profissional é muito maior. São enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, entre outros, dando o melhor de si para cuidar do outro. Muitas vezes, deixam de se alimentar adequadamente, esquecem-se de tomar água, de ir ao banheiro, de fazer intervalos… porque o foco é o cuidado.
Nesse sentido, é importante a construção de linhas de cuidado para os trabalhadores da saúde. Essas linhas de cuidado, segundo Brasil (2020) incluem a disponibilização de EPI´s (Equipamentos de Proteção Individual) e treinamento adequados, clareza e confiança nas decisões da gestão, disponibilização de espaços e intervalos para descanso, hidratação e alimentação adequada, além da oferta de atendimento psicológico para os momentos de fragilidade emocional (p.10). Fortalecer o trabalho em equipe também é essencial, pois na equipe os profissionais compartilham angústias, preocupações e se fortalecem.
Em meio às mudanças de protocolos, de rotina e de hábitos, somados ao aumento da sobrecarga de trabalho para os profissionais da linha de frente, são muitos os aprendizados que estamos construindo e um deles é que o cuidador também pode ser cuidado. E isto está acontecendo, de alguma forma. Observamos uma admirável mobilização da sociedade em atenção e cuidados aos trabalhadores da saúde. Percebemos incansáveis voluntários, de todas as idades e condições financeiras, produzindo máscaras de tecido, toucas e aventais, fazendo arrecadações de dinheiro para arcar com os custos da produção, padarias e restaurantes oferecendo lanches aos profissionais, empresas diversas realizando doações. Percebemos milhares de profissionais psicólogos ofertando consulta psicológica online gratuita para profissionais da linha de frente. Percebemos as equipes, mesmo exaustas e com níveis de estresse acentuados, se ajudando, criando rotinas de trabalho que amenizem a carga.
Todas essas linhas de cuidado são essenciais para que os profissionais de saúde se sintam de alguma forma amparados e cuidados. Mesmo que não acessem, num primeiro momento, todos os serviços que estão sendo ofertados, mas o fato de saberem que os mesmos estão disponíveis já causa um conforto, uma sensação de segurança, de apoio recebido, uma certeza de que quando precisarem saberão a quem recorrer.
Chegou a hora de a comunidade cuidar de quem os cuida e a recompensa aos profissionais de saúde está sendo generosa. Pensando na cultura do “fare assieme” (fazer juntos) originária da Província de Trento, Itália, talvez seja o momento de refletirmos sobre esta oportunidade de construção de políticas de saúde com maior envolvimento da sociedade. É momento de respirarmos mais fundo, observar mais o que está ao nosso redor, e refletir melhor sobre a prática do cuidado e sobre as formas de trabalho com a população.
E precisamos, acima de tudo, seguir entendendo que profissional da saúde é gente também, às vezes se fragiliza e precisa ser cuidado. Os próprios profissionais precisam adotar práticas de qualidade de vida, entender seus limites e respeitá-los. Precisam, antes de mais nada se cuidar, para ter condições de cuidar do outro. Precisam ser cuidados e aceitarem o cuidado, quando ele vem.
PATRÍCIA FELDEN TORMA, psicóloga.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BRASIL. Ministério da Saúde do. Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID-19: recomendações para gestores. Fiocruz. 2020. Disponível em https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/Sa%c3%bade-Mental-e-Aten%c3%a7%c3%a3o-Psicossocial-na-Pandemia-Covid-19-recomenda%c3%a7%c3%b5es-para-gestores.pdf. Acesso em 24/05/2020.
