O trabalho e a promoção da saúde mental

O trabalho exerce uma grande importância na constituição da nossa subjetividade, no nosso modo de vida e nas nossas relações sociais. Ele é mediador de integração social, seja pelo seu valor econômico ou cultural, podendo também influenciar na nossa saúde física e mental (BRASIL, 2001, p. 161). Nesse sentido, por todo o valor que o trabalho representa em nossas vidas, ele pode promover nossa saúde mental ou desencadear sofrimento psíquico, e isso irá depender de uma série de fatores, como o ambiente de trabalho e as condições que nele se apresentam.

Um trabalho que é desenvolvido em condições seguras, que nos possibilita boas relações interpessoais, que nos desafia positivamente, que nos permite desempenhar nossas habilidades e potencialidades, no qual nos sentimos valorizados, costuma ser um trabalho que promove a nossa saúde mental, sendo fonte de prazer e realização.

Por outro lado, um trabalho desprovido de significado, em condições inseguras, seja pelo risco de acidentes e violências ou pelo risco de desemprego, não valorizado, que impossibilita a oportunidade de fazermos as tarefas do nosso jeito, torna-se um conjunto de tarefas que serão favoráveis ao sofrimento psíquico e ao desencadeamento de transtornos mentais, possibilitando o adoecimento relacionado ao trabalho.

Observamos, no Brasil, um aumento das patologias mentais relacionadas ao trabalho. Segundo Dejours (2012), isso de deve ao estímulo da competitividade e aos programas de qualidade focados apenas no produto e não no trabalhador. Ainda, segundo o psicanalista francês, “o sofrimento mental resulta da organização do trabalho” (1987, p.25).

Todo trabalho pode ser fonte de prazer ou fonte de sofrimento, e isso pode alternar em diferentes momentos da história de vida do trabalhador. Existe uma série de fatores que podem influenciar nessa relação, como o ambiente de trabalho, as relações, os riscos etc.

Quando entrevistamos psicologicamente um trabalhador, buscamos conhecer sua história de vida e sua vida laboral. Pontos que marcaram positivamente e negativamente sua vida pessoal e sua vida laboral. Conhecendo a história de vida do trabalhador, avaliamos suas condições de saúde e o quanto seu trabalho pode estar interferindo na sua qualidade de vida. Ao identificarmos pontos de sofrimento, investigamos as causas e buscamos sinalizar o que pode ser mudado para melhorar a qualidade de vida no trabalho. Muitas vezes, é necessário olhar para o ambiente de trabalho e investigar in loco as condições do mesmo. Outros trabalhadores podem estar adoecendo pelas mesmas causas, sendo assim, não seria justo tratar o adoecimento como individual, sendo que o ambiente laboral está doente.

Quando o adoecimento acontece, importante mesmo é conseguir resgatar a identidade do trabalhador com o seu trabalho, valorizando sua subjetividade, fortalecendo-o para o enfrentamento das situações que surgem cotidianamente no trabalho e que poderão surgir. Às vezes a relação com uma determinada atividade laboral se desgastou, nesses casos costuma ser mais ponderado e benéfico trabalhar com a hipótese da troca de função, buscando novos desafios e novos investimentos subjetivos. Em outras situações, é possível reabilitar clinicamente e ao mesmo trabalho, realizando algumas mudanças, sejam individuais, sejam no ambiente de trabalho.

Mas bacana mesmo é promover a saúde e evitar adoecimentos! Investir em qualidade de vida no trabalho, gerenciar o estresse ocupacional, adotar programas que potencializem a saúde do trabalhador nas instituições tem se manifestado o caminho mais produtivo para todos. Sim, trabalhador saudável e feliz produz mais e melhor! Você tem alguma dúvida disso?

Batalhar por qualidade de vida no trabalho deve ser uma luta de todos nós. Seja cada trabalhador identificando no seu trabalho o que lhe faz bem e o que lhe causa sofrimento e tentando modificar isso, seja o empregador prestando atenção nos seus recursos humanos, seja o profissional de saúde identificando sinais de sofrimento no trabalho e orientando adequadamente, seja os órgãos com competência fiscalizatória fazendo suas inspeções… Cada um pode e deve fazer a sua parte! Às vezes, olhar para o nosso ambiente de trabalho e chamar nossos colegas para o diálogo pode ser um primeiro passo. Quando não está facilitado o diálogo, buscar ajuda profissional pode ser necessário.

Estejamos atentos ao nosso trabalho e aos efeitos que ele produz, afinal, ele é muito importante na nossa vida. Que o trabalho seja um meio para a realização de nossos sonhos e que contribua para a promoção da nossa saúde mental e da nossa felicidade!

PATRÍCIA FELDEN TORMA, psicóloga.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL, Ministério da Saúde do. Representação no Brasil da OPAS/OMS. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde. Organizado por Elizabeth Costa Dias; colaboradores Idelberto Muniz Almeida et al. Brasília, 2001.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5ª Ed. Editora Oboré, 1987.

DEJOURS, Christophe. Organização do trabalho e qualidade de vida. In: Seminário Internacional Saúde do Servidor e da Servidora, Porto Alegre, PROSER, 2012.

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