Efeitos da pandemia sobre o trabalhador e formas de superar a crise

Durante uma pandemia como a da Covid-19, que exige muitas adaptações na rotina dos trabalhadores, observamos uma diversidade de comportamentos e sintomas. Alguns destes são esperados e considerados comuns em uma pandemia, no entanto outros podem representar riscos de desenvolver ou agravar algum transtorno mental. A ansiedade, o medo e a insegurança deixam as pessoas, em geral, mais vulneráveis a qualquer distúrbio mental. Nesse sentido, cresce a importância de observarmos o comportamento da população exposta e realizar um plano de atenção à saúde mental dos trabalhadores e de seus familiares.

O aumento da crise econômica, o risco de desemprego ou a sobrecarga de trabalho, a exposição dos trabalhadores ao vírus e a avalanche de notícias podem gerar um estado de alerta, preocupação, estresse, irritabilidade, angústia, alterações do sono e do apetite, sensação de falta de controle da situação, conflitos interpessoais, aumento da violência, entre outros. Afinal, é um estado de incertezas que se vive no momento e sentir-se sem o controle da situação pode desestabilizar as pessoas.

Apesar de serem considerados sintomas comuns numa situação de pandemia, orienta-se aos gestores de serviços públicos e privados que fiquem atentos às suas equipes, pois alguns sintomas podem desencadear ou agravar quadros psicopatológicos. Buscar suporte psicológico aos trabalhadores que estiverem se sentindo muito ansiosos, aos que já possuíam alguma patologia mental antes da pandemia, aos próprios gestores e também aos familiares é uma medida de cuidado e de atenção a saúde mental de seus trabalhadores.

Ainda, as estratégias de proteção individuais e coletivas devem ser bem claras e a relação entre trabalhadores e gestores, de confiança mútua. Os trabalhadores precisam confiar nas estratégias de proteção adotadas e os gestores precisam confiar no auto-cuidado dos trabalhadores. Nesse sentido, a disponibilização dos EPIs e o adequado treinamento quanto ao seu uso, somados a clareza quanto às normas de segurança adotadas, amenizam a sensação de insegurança, podendo reduzir a ansiedade da equipe. Para os momentos mais difíceis, é indicado rememorar um pouco o passado e se perguntar: como eu enfrentaria uma crise antes da pandemia, quais crises eu já enfrentei na vida e de que forma eu lidei com elas? Esse exercício contribui na recuperação das estratégias de enfrentamento pré-existentes em cada pessoa. Melhor protegidos, menos inseguros e trabalhando em equipe, gestores e trabalhadores podem elaborar juntos as estratégias de enfrentamento da crise.

Como primeiro passo para o enfrentamento, sugere-se avaliar a situação atual e estabelecer o que pode ser feito no momento presente. Um importante questionamento é: “no que posso contribuir para esse momento de pandemia?” Se ficar em casa é a resposta, pois bem, deve-se buscar tranquilizar que sua melhor ajuda para o momento é não deixar o vírus circular. Daí cabem as dicas de aproveitar o momento da melhor forma: se vai trabalhar no modo home-office, estabelecer horários de trabalho e metas diárias; se está liberado do trabalho, dedicar-se a ocupar o tempo com cuidados com a casa e com a família que não eram possíveis antes. Mas se a resposta é contribuir com a saúde das pessoas, ou na distribuição de insumos, por exemplo, cumpra sua missão com todos os cuidados de proteção devidos.

E, finalmente, lembrar que a pandemia e a crise gerada por ela irão passar! Nesse sentido, devemos fazer planos para o futuro. Questionar-se: “o que eu quero fazer depois que isso tudo passar?”, “que projetos eu darei seguimento e quais eu modificarei?”, “o que eu aprendi com essa pandemia?” e “quais projetos novos eu posso construir?”. Planejar o futuro, mesmo em épocas de crise, nos permite entender que às vezes é necessário uma pausa, ou um passo atrás para ganhar impulso e atingir um melhor resultado. Sempre priorizando o que há de mais valioso na força de trabalho: a saúde e bem estar dos trabalhadores.

PATRÍCIA FELDEN TORMA, psicóloga.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Fundação Osvaldo Cruz. Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID 19: recomendações gerais. Coord. Noal, Débora da Silva; Damásio, Fabiana. Disponível em https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/Sa%c3%bade-Mental-e-Aten%c3%a7%c3%a3o-Psicossocial-na-Pandemia-Covid-19-recomenda%c3%a7%c3%b5es-gerais.pdf. Acesso em 12/04/2020.

Fundação Osvaldo Cruz. Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID 19: recomendações para gestores. Coord. Noal, Débora da Silva; Damásio, Fabiana. Disponível em https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/Sa%c3%bade-Mental-e-Aten%c3%a7%c3%a3o-Psicossocial-na-Pandemia-Covid-19-recomenda%c3%a7%c3%b5es-para-gestores.pdf . Acesso em 12/04/2020.

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